O Legado Histórico e Atual do IAC: Pioneirismo e Ciência que Moldaram a Cafeicultura Brasileira
IAC: O Responsável por 90% das Cultivares de Café Arábica no Brasil
Que o Brasil teve seu processo de desenvolvimento e identidade nacional influenciados pela cultura do café do século XIX até meados do século XX, não é novidade. O que provavelmente poucos sabem é que esse papel histórico-cultural foi possível graças à colaboração de pesquisadores e demais servidores do Instituto Agronômico – IAC, instituição participante do Consórcio Pesquisa Café, coordenado pela Embrapa Café.
O IAC é pioneiro e referência secular na pesquisa de café no Brasil. As pesquisas são coordenadas pelo Centro de Análise e Pesquisa Tecnológica do Agronegócio do Café "Alcides Carvalho", com apoio do Centro de Recursos Genéticos Vegetais e do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Ecofisiologia e Biofísica, ambos do IAC.
Pesquisas realizadas pelo IAC na área de café, com foco no desenvolvimento de cultivares, adequação de adubação, espaçamentos, densidade populacional, sistemas de podas e irrigação, dentre outros, foram fundamentais para o estabelecimento da base tecnológica para a modernização da cafeicultura brasileira.
De forma direta ou indireta, essas pesquisas contribuíram significativamente para a cafeicultura brasileira ser o que é hoje, altamente produtiva e considerada uma das melhores do mundo.
"Apesar das dificuldades relacionadas a recursos financeiros, pessoal de apoio e pesquisadores, pelas quais passamos nos últimos anos, nossa pesquisa se mantém ativa e mostra resultados excelentes a cada ano. Temos o mais antigo programa de pesquisa cafeeira do Brasil, ao mesmo tempo moderno, pois estamos em contínuo processo de evolução e adequação às novas demandas"
Mundo Novo e Catuaí: O Alicerce da Produção Nacional
Para ter ideia da importância histórica e atual do Instituto, as cultivares **Mundo Novo** e **Catuaí**, desenvolvidas pelo IAC, são alicerces e carros-chefe da cafeicultura brasileira e representam cerca de **90% dos cafeeiros arábicas cultivados**. As duas se adaptam a diversos sistemas de produção em praticamente todas as regiões produtoras. Além dessas, desde sua criação, o Instituto desenvolveu **65 cultivares de café arábica**.
Contribuições da Pesquisa: Da Adaptação de Cultivares ao Zoneamento Climático
Também pode-se destacar entre as contribuições do IAC:
- Cultivares resistentes à ferrugem.
- Trabalhos com adubação do solo que viabilizaram o cultivo do café no Cerrado.
- Processamento pós-colheita, incluindo o desenvolvimento do processo cereja descascado e de tecnologia para café despolpado.
- Estudos pioneiros em secagem, colheita mecanizada, fisiologia do cafeeiro e melhoramento genético.
- Agroclimatologia, com grande contribuição ao zoneamento climático e orientações para a mitigação dos efeitos do aquecimento global.
- Análises químicas do solo, folhas e sementes, fertilização química, enxertia, taxonomia e evolução das cultivares e melhoria da qualidade do produto com o enfoque da produção de cafés especiais.
Segundo Giomo, no início dos anos 50, o IAC realizou os primeiros estudos sobre a adaptação de cafeeiros às diversas condições climáticas, incluindo a microclimatologia relacionada a conceitos e métodos de defesa de geadas.
"Hoje, o IAC conta com um acervo de informações meteorológicas de mais de cem anos. A contribuição do Instituto nessa área contempla o zoneamento climático para a cafeicultura no estado de São Paulo, modelos agrometeorológicos para a previsão de safra, estudos do efeito do clima na fisiologia dos frutos, bem como estudos de ações mitigadoras do efeito do aquecimento global sobre a cafeicultura", salienta.
Tecnologias-Chave Desenvolvidas pelo IAC
Cultivares de Café
O extenso programa de genética e melhoramento do cafeeiro do IAC, desde 1932, já desenvolveu, selecionou, lançou e recomendou para plantio inúmeras cultivares de café. Entre elas, destacam-se: Catuaí Vermelho (IAC 99 e IAC 144), Catuaí Amarelo IAC 62, Mundo Novo (IAC 388-17, IAC 379-19 e IAC 376-4), Acaiá IAC 474-1, Icatu Vermelho IAC 4045, Icatu Amarelo IAC 2944, Icatu Precoce IAC 3282, Bourbon Vermelho IAC 662, Bourbon Amarelo, Ibairi IAC 4761, Laurina IAC 870, Obatã IAC 1669-20, Ouro Verde IAC H5010-5, Tupi IAC 1669-33, IAC 125 RN, IAC Obatã 4739 e Apoatã IAC 2258 (porta enxerto).
Fertilidade e Adubação: A Viabilidade do Cultivo no Cerrado
Os trabalhos pioneiros de correção e adubação de solos que permitiram a expansão do cultivo do café em solos de Cerrado foram realizados pelo IAC. Pesquisas realizadas em Batatais (SP) entre 1958 e 1969 indicaram a viabilidade técnica e econômica do cultivo do cafeeiro arábica em solos de baixa fertilidade natural, mediante a aplicação racional de calcário e fertilizante químicos.
O desenvolvimento da cultura do café em áreas de Cerrado, com topografia tipicamente plana, incentivou o desenvolvimento de uma cafeicultura 100% mecanizada e altamente tecnificada, com sensível redução do custo de produção.
Colheita Mecânica
Na década de 70, o IAC foi responsável pelos primeiros estudos com colheita mecânica do café. O Instituto importou e adaptou uma colhedeira mecânica de cerejas, transferindo o projeto para a iniciativa privada, que lançou a primeira colhedeira de café do mundo. A colheita mecanizada pode reduzir cerca de **40% dos custos de produção**.
Pioneirismo na Poda do Café
Estudos feitos no IAC contribuíram para o estabelecimento da **poda racional do cafeeiro**, que gera alternativa de baixo custo para revigorar a planta e viabiliza nova colheita em dois anos. Para renovar o cafezal com novos cafeeiros, o custo gira em torno de R\$ 9 mil a R\$ 13 mil por hectare, e a nova colheita é feita somente depois de quatro anos.
Sistema de Plantio em Renque ou Adensado
Essa tecnologia é utilizada em pelo menos **95% das áreas mecanizáveis de café** e viabilizou a mecanização total da lavoura, favorecendo a racionalização dos tratos culturais e a redução dos custos. Consiste em colocar uma planta por cova, com distância de 0,50 m a 1 metro na linha de plantio, variando de 2 m a 4 m o espaço entre as linhas, totalizando, por hectare, de 2.500 a 10.000 plantas. No sistema tradicional, são usadas duas plantas por cova e espaçamentos largos, resultando em 2.000 plantas por hectare.
Novas Tecnologias Geradas com o Consórcio Pesquisa Café (Pós-1997)
Com a criação do Consórcio Pesquisa Café, as pesquisas ganharam novo impulso:
- Genoma Café: Participação no sequenciamento do genoma, resultando em um banco de dados com mais de 200 mil sequências de DNA e a identificação de mais de 30 mil genes.
- Sistema para Expressão Dirigida de Genes: Desenvolvimento, em parceria com a Embrapa Café e Unesp-Botucatu, de dois sistemas (Promotor CalsoR - folhas e Promotor Caperox - raízes) que permitem direcionar e controlar a expressão de genes, com patentes registradas no INPI.
- Novas Cultivares Resistentes: Seleção final e lançamento de cinco cultivares, incluindo Tupi IAC 1669-33, Obatã IAC 1669-20 e IAC Obatã 4739. Três delas são resistentes à ferrugem.
- Genes da Qualidade do Arábica: Pesquisa que identificou genes potenciais responsáveis pela qualidade e comprovou que a melhor qualidade do Arábica se dá pela maior expressão de genes da produção de açúcares.
- Café Naturalmente Sem Cafeína: Descoberta do cafeeiro IAC 045125 (ainda em pesquisa), cujo teor da substância é de apenas **0,07%** (10 vezes menos que o café habitual). O estudo visa gerar produto com valor agregado, sem o custo da descafeinização química e com preservação de sabor.
O Maior e Mais Antigo Banco de Germoplasma de Café do Brasil
O Instituto mantém o maior e mais antigo Banco de Germoplasma – BAG de café do país, com **5.451 registros**. Esta coleção, mantida em Campinas e Mococa (SP), é formada por cerca de trinta mil cafeeiros e reúne grande diversidade de mutantes, formas botânicas, e variedades exóticas das principais espécies cultivadas (*Coffea arabica* e *C. canephora*).
O IAC foi criado em 27 de junho de 1887 pelo Imperador Dom Pedro II, com o objetivo primeiro de assistir tecnicamente ao desenvolvimento da cafeicultura nacional. O programa de melhoramento genético do cafeeiro do IAC foi estabelecido em 1932, acumulando **82 anos de ininterruptas pesquisas**.